O medo como arma política: quem ganha quando o inimigo está sempre à espreita?
Em períodos eleitorais, o debate público deveria funcionar como uma vitrine de propostas e soluções para os problemas da sociedade. No entanto, a realidade das campanhas modernas aponta para outra direção: o medo transformou-se no principal combustível da disputa pelo poder. Nas redes sociais, em grupos de mensagens e nos discursos oficiais, o adversário político deixou de ser apenas um concorrente ideológico para ser moldado como uma ameaça existencial ao país. O resultado é um cenário em que o pavor frequentemente silencia o argumento.
O Brasil recente é um laboratório claro desse fenômeno. Em diferentes ciclos eleitorais, eleitores foram bombardeados por narrativas de que a vitória do outro lado representaria, invariavelmente, o fim da democracia, a destruição da família, a implantação de uma ditadura, o avanço do comunismo ou a consolidação do fascismo. Embora os espantalhos mudem conforme o espectro ideológico, a engrenagem é idêntica: fabrica-se um inimigo terrível para mobilizar paixões intensas.
Apelar ao temor coletivo para fechar fileiras não é uma novidade histórica. A grande virada contemporânea está na velocidade e na escala da propagação. Plataformas digitais e aplicativos de mensagens transformaram a comunicação em um fluxo ininterrupto projetado para despertar indignação ou revolta em frações de segundo. Os algoritmos, desenhados para engajar, privilegiam o que choca. Quanto mais uma publicação assusta ou revolta, mais ela é compartilhada, comentada e impulsionada.
Nesse ecossistema, o pânico é cirúrgico. Um boato que sugere uma ameaça iminente capta muito mais atenção do que a explicação técnica de uma política pública. Criam-se bolhas informacionais onde o indivíduo consome apenas o que confirma seus pavores, distorcendo completamente a percepção do outro. O divergente deixa de ser alguém que pensa diferente e passa a ser encarado como um perigo real à sobrevivência de valores fundamentais.
As consequências dessa dinâmica extrapolam as urnas e corroem o tecido social. Quando a política se organiza em torno do pânico, a confiança institucional desaba. Tribunais, imprensa, universidades e órgãos públicos passam a ser vistos como engrenagens de um suposto complô oculto. A suspeita permanente substitui o diálogo, sabotando a convivência democrática.
Até mesmo o combate à desinformação esbarra nessa barreira psicológica. Agências de checagem realizam um trabalho indispensável, mas a força das emoções frequentemente blinda a mentira. Uma narrativa baseada no medo costuma ser mantida pelo público não por ser verdadeira, mas porque valida sentimentos e identidades políticas já consolidados. Diante do pânico, o fato perde para o que parece emocionalmente plausível. O horizonte torna-se ainda mais nublado com o avanço da inteligência artificial e a popularização de deepfakes (mídias falsificadas com IA que imitam vozes e rostos reais), ferramentas capazes de mimetizar a realidade com precisão assustadora e inflamar a sensação de insegurança coletiva.
Isso não significa ignorar as graves crises que o Brasil enfrenta no dia a dia. O ponto crítico é compreender como esses temores legítimos (que incluem a violência urbana, a instabilidade institucional e os problemas econômicos) são sequestrados e instrumentalizados para moldar percepções e direcionar o voto.
O maior desafio das democracias contemporâneas é resgatar a capacidade de debate racional em um ambiente desenhado para a reação visceral e imediata. Sem essa moderação, corremos o risco de transformar adversários conjunturais em inimigos perpétuos. Afinal, quando o medo se consolida como a linguagem universal da política, a primeira vítima fatal é a própria democracia.
Sidney da Silva Chaves
(Doutor e mestre em Ciências da Educação, graduado e especialista nas áreas de Letras e História)
Sidney da Silva Chaves
Enviado por Sidney da Silva Chaves em 28/10/2026
Alterado em 28/10/2026