Sidney da Silva Chaves
A poesia é a expressão da forma como o poeta vê as coisas da vida
Textos

Pé vermelho

 

Há lembranças que não se apagam, mesmo quando o tempo insiste em correr mais rápido que a enxurrada. No interior do Paraná, cada chuva era convite: a rua virava rio, e a infância se transformava em aventura. Não havia brinquedo comprado que competisse com a terra vermelha grudada no pé descalço, com o riso solto da piazada que descobria, na simplicidade, a grandeza da vida.

 

Eu me recordo, quando criança, das vezes em que chovia na pequena Quinta do Sol, no interior do Paraná. A rua se tornava correnteza, e o barro vermelho tingia os pés como uma marca indelével. A piazada não precisava de brinquedos caros: bastava a enxurrada. Pés descalços, terra no calcanhar e a liberdade correndo solta, como se cada chuva fosse um presente inesperado. Eu morava ali, atrás do ginásio de esportes, bem na esquina onde a Rua Três Marias faz esquina com a Rua Andrômeda. Antigamente tinham outros nomes, mas já não me lembro. 

 

A cena se repetia tantas vezes que acabou virando fotografia da infância. Do portão, a mãe chamava com voz firme, lembrando que havia limites. Mas até esses limites faziam parte da brincadeira: eram o sinal de que a vida simples também tinha regras, e de que a infância, por mais intensa, não durava para sempre.

 

Hoje, quando a memória insiste em voltar, percebo que aquelas corridas na chuva eram mais do que diversão. Eram lições silenciosas sobre o tempo, sobre a alegria que cabe nas coisas pequenas, sobre a força da terra vermelha que marca não só o pé, mas também a identidade.

 

O Paraná guarda esse traço: a simplicidade que resiste, mesmo quando o mundo parece correr mais rápido que a enxurrada.

 

Sidney da Silva Chaves
Enviado por Sidney da Silva Chaves em 08/01/2026
Alterado em 08/01/2026
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