Sidney da Silva Chaves
A poesia é a expressão da forma como o poeta vê as coisas da vida
Textos

Em tempos de polarização: razão, opressão e democracia

Sidney da Silva Chaves *

 

Em tempos de polarização, perde-se a razão. O bom senso se esvai e a estupidez ganha voz. Não há raciocínio lógico; emerge no ser humano o que há de mais perverso. O homem torna-se lobo do próprio homem, como afirma Hobbes ao refletir sobre a natureza humana e a necessidade de um poder soberano para conter os impulsos destrutivos (Hobbes, 2003). Devora-se a razão, agiganta-se a ignorância e instala-se o caos democrático. Vivemos em tempos de lobos e suas crias, que atacam os vulneráveis — aqueles que não dispõem de tempo para pensar e agir devido a labuta diária.

Nesse cenário, intelectuais, por vezes, unem-se às feras que devoram o povo. O oprimido, em determinadas circunstâncias, transforma-se em opressor, conforme observa Paulo Freire ao analisar como os sujeitos, ao ascenderem socialmente, podem reproduzir práticas de dominação (Freire, 1970). Tal fenômeno ocorre pelo prazer de empunhar o chicote da ideologia e pela busca de status social.

Além disso, as redes sociais converteram-se em espaço de disputas simbólicas, comparável a um ringue de luta, onde prevalece menos a racionalidade e mais uma emoção polarizada. Habermas argumenta que a esfera pública deveria ser um espaço de debate racional e inclusivo, mas o que se observa é sua fragmentação em arenas de confronto (Habermas, 1984). Castells aponta que as redes digitais potencializam tanto a mobilização social quanto a manipulação ideológica, criando ambientes em que discursos políticos se apresentam como defesa do povo, mas revelam-se estratégias de manutenção de interesses particulares (Castells, 2009).

Do mesmo modo, o Congresso Nacional e as câmaras legislativas já não funcionam como verdadeiras “casas do povo”. Tornaram-se espaços de representatividade seletiva, onde muitos grupos encontram voz, menos o cidadão comum. Imerso na rotina de trabalho, este entrega aos representantes uma carta em branco, ampliando a distância entre governantes e governados. Há exceções de políticos comprometidos com as causas populares, mas são minoria diante de um sistema que privilegia interesses específicos.

Diante disso, Hobbes e Freire, em contextos distintos, apontam para a mesma realidade: o ser humano, quando privado de reflexão crítica, tende a reproduzir a violência e a opressão. Habermas (1984) acrescenta que a ausência de um debate público racional compromete a legitimidade democrática, enquanto Castells demonstra que as redes digitais, ao mesmo tempo que ampliam a comunicação, intensificam a manipulação ideológica.

Por essa razão, o Brasil precisa resgatar sua civilidade, respeitar a diversidade e cultivar o respeito mútuo, que sempre foi a essência do nosso povo. A divergência deve existir nas democracias, pois é justamente isso que as torna fortes. No entanto, quando se transforma em barbárie, a nação perde sua dignidade. É preciso que os representantes ajam com civilidade e pensem na coletividade, e não apenas em seus interesses.

Em síntese, a consolidação da democracia exige não apenas instituições sólidas, mas também práticas sociais pautadas pelo diálogo e pela tolerância. Habermas observa que a esfera pública só se fortalece quando nós, cidadãos, participamos de forma crítica e racional, reconhecendo a legitimidade do contraditório (Habermas, 1984). O respeito às diferenças, aliado ao compromisso ético de nossos representantes, constitui o caminho para superar a polarização e reencontrar nossa vocação histórica de construir uma nação plural, justa e solidária.

Diante do exposto, o Brasil e o povo brasileiro precisam, com urgência, voltar a ser pauta central nas casas legislativas e no cenário político. É indispensável que os representantes retomem o compromisso com as demandas reais da sociedade, colocando o cidadão comum no centro das decisões. Ao mesmo tempo, o povo deve recuperar sua lucidez crítica, exercendo reflexão diante das ideologias que buscam manipular e dividir. Sem esse exercício consciente, corre-se o risco de perpetuar a alienação e a opressão. Apenas com participação ativa e pensamento crítico será possível fortalecer a democracia e construir um país mais justo e plural.

 

Referências

CASTELLS, Manuel. Comunicação e poder. São Paulo: Paz e Terra, 2009.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970.

HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.

HOBBES, Thomas. Leviatã: ou matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. São Paulo: Martins Fontes, 2003. (Obra original publicada em 1651).

 

* Sidney da Silva Chaves: Doutor em Ciências da Educação (Unades – Universidad del Sol, PY); Mestre em Ciência da Educação (Uniube – Universidade de Uberaba); Graduado em Letras (Fecilcam/Unespar – Universidade Estadual do Paraná); Graduado em História (Unemat – Universidade Estadual de Mato Grosso); Especialista em História de Mato Grosso (IFMT – Instituto Federal de Mato Grosso); Especialista em Língua Portuguesa (Unemat – Universidade Estadual de Mato Grosso); Especialista em Metodologia e Didática do Ensino Superior (FIU – Faculdades Integradas Urubupungá); Especialista em Literatura Infantojuvenil (Faculdade Única – Minas Gerais); Especialista em Literatura, Cultura e Ensino da Arte (Faculdade Única – Minas Gerais).

 

 

Sidney da Silva Chaves
Enviado por Sidney da Silva Chaves em 07/01/2026
Alterado em 07/01/2026
Comentários